CRÔNICA PARA MIM



- Eu queria um corpo! Só um corpo! Um corpo que não quisesse romance, não mandasse flores no dia seguinte, não levasse café na cama, não mostrasse a foto da irmãzinha mais nova, a construção da casa na chácara, tijolinho por tijolinho... Só um corpo. Os homens não eram assim. De repente, o mundo mudou e, de repente, eu não sei mais o que está acontecendo.
Era essa a inquietação da Japonesa. E ela continuava falando, na sua solidão compartilhada, olhando para o longe.
- Por que a gente não pode gostar de ser sozinho? Por que a gente tem que querer ter filhos? Por que eu tenho que sofrer de amor, se eu não gosto? Eu simplesmente não gosto. Daí, já aparece um alguém dizendo “olha lá, é sapatão!”, ou então “nós vamos arrumar um amor para você!”. Como se amor fosse uma coisa que se compra no shopping...
Ela queria só um corpo. Prazeres da carne e só. E eu, na minha insignificância melodramática, imaginava todos os amores impossíveis, platônicos – que de tão platônicos nem existiam – feito uma novela mexicana daquelas. Quando eu vi estava casada, com casa, carro, emprego fixo e... feliz. Mas, nunca me perguntei se era essa a única forma da felicidade. Apenas decidi que, para mim, era essa. Simples assim: com pedras, barreiras, às vezes intransponíveis, com pequenas felicidades diárias, risada sem sentido...
Mas, ao mesmo tempo, entendia muito bem aquela felicidade sozinha da Japonesa. Felicidade de se esconder depois do sexo, quietinha, “pé com pé”, no jardim de inverno, só com a cabeça para o lado de fora, lendo Sartre e olhando, minuto a minuto, se o moço não acordava. Quando cansava de ler, queria dormir, mas o ser humano deitado na sua cama atrapalhava um pouco. E ela ria sozinha, porque tinha arrumado uma solução:
- Psiu, psiu... Você precisa ir embora! Daqui a pouco a minha empregada vai chegar... E ela é evangélica! (minutos depois) Ufa! Minha cama só para mim!
E, sabe de uma coisa? Não existia empregada. Muito menos evangélica. E ela contava a história, e a gente ria, ria muito. E eu olhava a nossa turma e percebia o quanto nós éramos estranhos. Uma mistura de gente diferente, todos estranhos e ao mesmo tempo normais. E isso era mais estranho ainda. E a Japa, que precisava de um corpo. Um copo de chá, e um corpo.
Nesse momento, perdia-me em mim novamente tentando entender porquê as pessoas ficam em volta da gente, querendo dizer o que é bom para a gente. “Você está fazendo tudo errado! Os seus móveis estão no lugar errado!”. Meu Deus! Se eu estou fazendo tudo errado, então eu preciso ficar triste. Mas eu estou feliz.
Gente! Daí preciso dizer que eu sou toda errada porque fico feliz porque eu faço tudo errado. E penso: como uma pessoa que faz tudo errado pode ser feliz? Nessa hora percebo que sou toda errada ao quadrado. E aí errada passa a ser a raiz quadrada de “mim”, de mim mesma, porque se fosse “de eu” estava errado.
Nossa! Quanta coisa errada nesse mundo... E de mundo errado tem um monte. Será que dá para trocar de mundo?  (...) Ai! Acho que fiquei meio autista, igual a Japonesa. Mas, porque mesmo que estava contando isso? Não sei! Me perdi... E “me perdi” também está errado, porque é “perdi-me”. Como se fizesse alguma diferença o lugar do “me”... Se estou perdida mesmo!
Agora sou uma perdida, errada ao quadrado, e melodramática. Praticamente uma bomba H, guardada em uma caixa de papelão, deixada no meio do parque. Além do quê, não encontrei a resposta do porquê estava contando tudo isso, mas acho que já não importa mais. E toda “rimante”, fechei a porta, toda torta, achando que devia ficar triste porque estava toda errada, de trás para frente, ou do avesso.

Agora, acho que sou que quem precisa de uma empregada evangélica! E o pior: continuo feliz. E agora estou dando risada sozinha. Caso sério esse! 


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