CRÔNICA PARA MIM
- Eu queria um corpo! Só um corpo! Um corpo que não quisesse romance, não mandasse flores no dia seguinte, não levasse café na cama, não mostrasse a foto da irmãzinha mais nova, a construção da casa na chácara, tijolinho por tijolinho... Só um corpo. Os homens não eram assim. De repente, o mundo mudou e, de repente, eu não sei mais o que está acontecendo. Era essa a inquietação da Japonesa. E ela continuava falando, na sua solidão compartilhada, olhando para o longe. - Por que a gente não pode gostar de ser sozinho? Por que a gente tem que querer ter filhos? Por que eu tenho que sofrer de amor, se eu não gosto? Eu simplesmente não gosto. Daí, já aparece um alguém dizendo “olha lá, é sapatão!”, ou então “nós vamos arrumar um amor para você!”. Como se amor fosse uma coisa que se compra no shopping... Ela queria só um corpo. Prazeres da carne e só. E eu, na minha insignificância melodramática, imaginava todos os amores impossíveis, platônicos – que de tão platônicos nem existiam ...