Vamos falar de amor?

QUEM INVENTOU O AMOR? ME EXPLICA, POR FAVOR...

Alguém, por aí, já sofreu de amor? Alguém, por aí, já escorregou na parede do banheiro, em prantos, cantando “Spending my time”? Não sejamos tímidos! Acredito que o universo já tenha passado por isso. De repente, aquela coisa mais terrível brota dentro do seu cérebro:

Tira essa paixão da cabeça 
Tira essa tristeza do olhar 

Em choque! Quando Vinícius de Moraes para de fazer sentido, e você começa a cantarolar música sertaneja da década de 90, algo está errado! Isso me fez lembrar de uma frase do Oswaldo Montenegro: “quantas canções que você não cantava, hoje assovia para sobreviver...” (A Lista, 1999) E o Renato (Russo), pergunta mil vezes, logo antes de falecer (em 1996), “Quem inventou o amor, me explica, por favor...” Não sabemos, ou sabemos? Alguém inventou o amor? E dos conflitos internos a gente faz uma limonada! Detox...

Amor, amores, amor de mãe, amor de filho, amor bandido, amor romântico, amor maluco, incondicional, doente, amor de amigo, carente, amor próprio, amor ao próximo... Eros, Anteros, Cupido, Afrodite, Freya, Hathor, Ísis, Oxum, Inanna, Frigga, Vênus, Jaci, e quantos outros Deuses representam o amor? Fora isso, um montão de referências surge automaticamente... É maçã, é Helena, é Penélope, é Xerazade, é princesa da Disney, não sei, não... Uma loucura essa coisa de pensar no amor!

Mas ainda não sei, quem inventou o amor? Quando, pela primeira vez na humanidade, alguém falou de amor? Correremos aos quatro cantos da Terra, para os quatro anjos da Terra, para que soltem os quatro ventos e revelem a resposta, para acalmar nossos corações (se você não entendeu nada, é porque não leu o Apocalipse!)

Josefina Pimenta Lobato (Antropóloga, “Antropologia do Amor: Do Oriente ao Ocidente”, 2012) acredita, junto com um grupo grande de gente, que o amor romântico nasce com os trovadores do século VII, na Europa. Interessante a composição que ela faz em sua tese de pós-doutoramento: amores disciplinados, amores domesticados e selvageria. Imagina, que até 1993, com a publicação de “Sex, Death, Hierarchy in a Chinese City” (Jankowiak, 1993), a antropologia, de forma geral, não acreditava que chinês poderia amar... Oi? O ser humano é coisa engraçada...  

E não é porque não tinham conhecimento dos textos antigos, por exemplo, da dinastia de Tang (618-907 d.C), era porque ele simplesmente não acreditava que isso seria possível... Olha a publicação: “Assumi tão fortemente que os chineses eram incapazes de sentimentos românticos que sempre me recusei a acreditar nos meus amigos, quando alguém dizia sobre estar apaixonado ou ter deixado de amar. Eu simplesmente assumi que os chineses, nessas circunstâncias, haviam adotado um estilo de discurso ocidental para demonstrar sua inclinação moderna. Dessa maneira, considerei o amor como uma emoção que os chineses seriam incapazes de experimentar. ”

Oi? De novo! Como assim, amigo? Eles são extraterrestres? (Ok... tem gente que acredita nisso, mas vamos considerar, com racionalidade, que os chineses também sejam pessoas, normais, com sentimentos normais, vivendo num mundo normal...) O pior não é isso... O pior é ver o comentário da publicação desse ser humano: “O caráter inovador da sua descoberta de que os chineses são capazes de se apaixonar, de sentir ciúmes e de sofrer pelo amor não correspondido...” Oh, gente, não me irrita!!!!!

Mas, ok! Depois de perceber que na Antropologia não ia achar nada de interessante, comecei a revisitar os textos mais antigos, para ver se encontrava algum resquício de qualquer coisa, que se parecesse com esse buraco negro, misturado com vulcão em erupção e avalanche, morador do meu peito por esses dias...

E, falando em texto antigo e coisa séria, acho que podemos começar pela Bíblia. Segundo a tradição aceita, temos um texto que data de 1500 a.C. - 450 a.C. Ou seja, meio longe do tal século VII... AMOR é uma palavra que existe em hebraico e está no texto antigo. Quando fui ver seu significado achei tão lindo, tão lindo, que acalmou meu coração. Por isso preciso dividir com vocês!

Lembra que a palavra é lida da direita para a esquerda! É composta de três letras básicas: aleph (א), hei (ה), e vet (ב). Vou mostrar o significado de uma por uma, e eu tenho certeza que depois disso você vai ter vontade de saber mais sobre essa língua incrível.



ALEPH, a primeira letra, representa a parte divina que compõe o ser humano.


A letra Aleph é o "pai" do Aleph-Bet, cuja pictografia original representa um boi, força e líder. No alfabeto hebraico clássico (ketav Ashurit) usado para escrever os rolos da Torá, Aleph é construída com dois Yods (um para o canto superior direito e outro no canto inferior esquerdo), que são unidas por uma Vav diagonal. Na literatura cabalística, o Yod superior (significando um braço) representa o aspecto oculto (e infinito), chamado ein sof (אֵין סוֹף, lit. "Sem fim"), enquanto o Yod inferior representa a revelação para a humanidade. O Vav, cujo significado é "gancho", mostra conexidade entre os dois reinos. Os dois Yods também indicam o paradoxo da experiência de Deus tanto como escondida e perto, longe e próximo. Do fenício / Ketav Ivri, a letra Aleph transformou-se na letra Alpha Grega, da qual veio A do Latim:



Quando Raul Seixas cantou “a letra A tem meu nome”, ele quis dizer tudo isso! O número de Aleph é 1000. O um antes do nada. Louco, ne?! Ah! Por último, Aleph tem um caráter reflexivo, de reflexo mesmo, voltar-se para si, o que vai representar a aproximação da palavra à primeira pessoa.
Vamos para a próxima: HEY. Essa é bem legal!!! Vai vendo...

De acordo com os místicos judeus, Hey representa o sopro divino, a revelação, e a luz. Uma vez que o valor numérico de Hey é de cinco, o que corresponde a um nível físico para os cinco dedos, os cinco sentidos e as cinco dimensões. Em um nível espiritual, corresponde aos cinco níveis da alma:
Nefesh - instintos
Ruach - emoções
Neshamah - mente
Chayah - ponte para a transcendência
Yechidah - unidade 

De acordo com um midrash, Yod deixou Aleph para se tornar parte de Dalet, formando assim Hey. Hey é um retrato da presença de Deus dentro do coração humano. Daí a expressão “Deus é amor”. Tudo vai fazendo sentido. 

Da mesma maneira, Hey funciona como o artigo definido em hebraico, uma espécie de demonstrativo que aponta para o objeto e o torna concreto e definido e quando adicionando no final de um substantivo "o feminiza" ou permite que seja "frutífero" e reprodutivo. Por isso, o amor é feminino. Volta lá na palavra desenhada e repara: da direita para esquerda! O divino se materializa no homem, a partir da “porta de luz”, ativando todos os sentidos, e transforma-se em feminino. Maravilhosoooooo!!!! 

Olha outra coisa legal: lembra aquela frase “Por isso, deixa o homem (איש ‘iysh) pai e mãe e se une à sua mulher (אשה ‘ishah), tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24) – repara na grafia!

Veja que a palavra “Homem”, em hebraico se escreve assim: איש (‘iysh)
Agora veja que a palavra “Mulher”, se escreve assim: אשה (‘ishah)
Se você retirar essas duas letras sobram, tanto do homem como da mulher: אש (‘esh) -> que significa: Fogo

Ou seja, moçadinha bonita, tem que achar um par para aplacar o fogo! E acho que esse fogo não é bem o sagrado! 

Yod ( י ) que o homem possui representa uma ideia, um pensamento, uma semente. Já a mulher possui um Hey ( ה ), observe que o Hey é um Dalit ( ד ) com um Yod ( י ) dentro. Um milhão de interpretações podem surgir aqui, vou deixar a cargo de vocês. Vamos extirpar o instinto, apesar dele fazer parte do Hey como Nefesh, e considerar que Dalit tem um forte conteúdo metafísico, que se utiliza do aspecto físico do Yod, para transformar a realidade. O pensamento que passa pela porta de luz para atingir o ambiente físico. Basicamente isso. Essa letra é incrível! A formação a partir Dalit e Yod também pode ser uma imagem de retornar a Deus por meio do poder transformador do Espírito. Fogo também merece um estudo desse... Ora sagrado, ora profano, ora punitivo, ora revelador... Hum! Vai ter... Vai ter um texto só sobre fogo! Mas vamos voltar ao amor, que é o grande problema dessa semana.A próxima letra é VET, ou BET quando possuir um pontinho no meio. Isso é só uma questão de pronúncia.

A letra Bet é a segunda letra do Aleph-Bet, tendo o valor numérico de dois; é a "arquitetura" como uma casa construída de três Vavs. A abertura do lado esquerdo da letra funciona como uma "janela" para a forma da letra. Bet representa a alteridade, a dualidade, o paradoxo, a criação, a morada em realidade inferior. É a pluralidade advinda da unidade. Os três Vavs somam 18, o mesmo valor para o chai, ou vida. A casa de criação é, então, a vida do universo. Deus não criou um mundo, mas dois. É o reino do mundo por vir, onde nós devemos viver nossas vidas na presente consciência do nosso fim eterno.

Então, humanos, palavra maravilhosa, voltando lá nas outras letras, o divino se materializa no homem, a partir da “porta de luz” feminina, ativando todos os sentidos, constrói sua morada, em uma vida para o outro, e transforma-se em espírito. Uau!

Existem outros termos usados para especificar coisas mais carnais. Mas, mesmo assim, os significados são muito interessantes. As traduções modernas religiosas atrapalham um pouco... Mas vamos deixar para o texto do fogo, porque vai combinar mais!


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There´s a kind of hush all over the world tonight...

30 de maio de 2019

Continuando nossa saga amorosa pelo mundo, ouvindo "the sound of lovers in love"... Já descobrimos que há 1500 a.C existia amor e sexo! (não contei para vocês na postagem anterior, porque estou guardando tudo para o fogo!!! hummm...). Mas a humanidade já existia há zilhões, e eu continuo me perguntando, quando foi a primeira vez que o Piteco largou o tacape e desenhou corações no seu olhar? Quando foi que a dança do acasalamento ganhou um toque de sedução consciente?

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 É O AMOOOOOOOOOOORRRRRRRRR...

31 de maio de 2019

É o amo-o-o-orrrr... Que mexe com a minha cabeça e me deixa assim... 

Sempre começando com uma dose de brega, porque não tem como falar de amor, sem se afogar na lama, sem escorregar no azulejo do banheiro, sem descabelar... É uma loucura pensar que  humanidade sofre de amor há milênios... Mas é a realidade!

Um ucraniano, mucho loco, Samuel Noah Kramer (que passou por esse planeta por quase 100 anos – de 1897 a 1990), afirmou categoricamente: “A História começa na Suméria...”! 
Eu, que nunca duvido de gente que dura muito, fui dar uma espiada e... encontrei um poema de amor dedicado ao rei Shushin (e pasmem!) datado do período de 2038 a 2030 a.C.! E esse tem monolito para provar! Alguns especialistas ainda acreditam que esse poema é de, mais ou menos, 4000 a.C.

Eu nasci, há dez mil anos atrás. E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais... Raul Seixas? Nããããaõooo... Kramer! 

Depois, o pessoal, por aí, tece críticas homéricas a minha pessoa, quando eu falo que filosofia grega é criança perto dos conhecimentos dessas civilizações... Ô minha gente bonita desse Brasil varonil... O mundo é velho para caramba... E o pior... o drama continua o mesmo... Mas vamos voltar ao amor... Ah! O amor!

Olha que bonitinho: Muazzez Cig, um dos conservadores turcos da coleção de placas literárias sumérias guardadas no Museu da Antiguidade Oriental de Istambul, mostrou para o mundo a voz de uma jovem noiva que convida o seu amado a entregar-se a suas carícias durante uma noite de amor na casa de ambos! Uouuuuuuu... amor bandido, gente! Cinquenta tons de cinza, que nada... Erótico, mas não profano! Era recitado nas festas de Ano Novo, que dedicava à Deusa Inanna uma solenidade, com a finalidade da perpetuação da fecundidade universal.

Olha ela... Siliconada?



A  deusa  do  amor, seja  a  Vênus  romana,  a  Afrodite grega,  ou a  Ištar babilônica – aquela que nas estatuetas sempre está segurando os peitinhos hahaha -,  tem  a  virtude  de  inflamar  a imaginação  dos  homens  e, sobretudo,  dos  poetas. Os sumérios a  adoravam  sob  o  nome  de  Inanna,  a  “Rainha  do  céu”, que tinha por esposo ao deus Dumuzi, o deus pastor, o Thammuz da Bíblia (Ezequiel, VIII, 14). O tio Kramer ensinou tudo isso para nós em 1985...

Posso abrir parênteses, aqui, só um pouquinho? É porque o negócio é muito legal: A primeira lenda da ressurreição também é um poema mítico dedicado a Inanna, com o cortejo de Dumuzi. Inanna era Dingir, que é o termo que traduz, na antiga língua suméria, a palavra deus. Ela é uma das oito divindades mais importantes do panteão sumério. Ou seja, o primeiro Deus criado na história era mulher... Atriz principal na espiritualidade... Não é incrível!!!????

Sabe que eu lembrei uma coisa: aquela foto da estátua gordinha, a primeira que você aprende em história da arte? Aquela, que você não deu nenhum valor, porque na prova da UEL só cai arte pós-moderna? Então... é de 25.000 anos antes de Cristo... Posso pensar que estamos falando de uma coisa de amor muito mais antiga... Até dá para pensar naquelas teorias mirabolantes de gente que vai e volta no tempo... Opa! Mais uma ideia interessante (Loucuras da Humanidade) – vai virar postagem! Já temos fogo e loucura... Vai dar bom esse negócio!


Mas vamos voltar ao amor... Acho digno colocar o poema aqui... é bem fofo!

Noivo, caro ao meu coração,
Agradável é a tua beleza, doce mel,
Leão, caro ao meu coração,
Agradável é a tua beleza, doce mel.

Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,
Noivo, eu deixaria que me levasses para o quarto,
Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,
Leão, eu deixaria que me levasses para o quarto.

Noivo, deixa que te acaricie,
A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel,
No quarto o mel corre,
Desfrutamos a tua agradável beleza.
Leão, deixa-me acariciar-te,
A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel.

Noivo, tu de mim tomaste o teu prazer,
Diz à minha mãe, ela far-te-á gentilezas,
O meu pai, ele dar-te-á presentes.

O teu espírito, eu sei onde recrear o teu espírito,
Noivo, dorme na nossa casa até ao amanhecer,
O teu coração, eu sei como alegrar o teu coração,
Leão, durmamos juntos em nossa casa até ao amanhecer.

Tu, porque me amas,
Dá-me o favor das tuas carícias,
Meu senhor deus, meu senhor protetor,
Meu Shu-Sin que alegra o coração de Enlil,
Dá-me o favor das tuas carícias.

Teu lugar agradável como mel, por favor estende
a tua mão sobre ele,
Traz a tua mão sobre ele como um manto gishban
Cola a tua mão como uma taça sobre ele como um traje gishban-sikin.

Bom, não me perguntem o que é um “manto gishban” ou um traje “gishban-sikin”, que eu não vou saber explicar... Até se alguém souber, e quiser deixar nos comentários, eu agradeço! Já que estamos na Suméria, vamos falar de amor em sumério... A palavra amor em sumério está composta de dois sinais cuneiformes, "ki" e "ag":  "Ki-ag”


Com uma boa dose de imaginação abstrata, até dá para entender o desenho... Hum... esse amor... Tá ficando um tanto caliente... Mas, diz o professor que, em sumério (de acordo com P. Steinkeller), o amor tem um contexto muito específico social. o  homem  deve  ter  medo  ou  respeito  dos  deuses,  mas  nunca  amor. Ao invés  de  indicar  paixão  ou sentimentos  difusos,  "amor"  indica  algo  como  afeição  ou benevolência.

Mas, a Deusa Inanna não estava muito satisfeita com essas definições, não. Em um dos 33 poemas dedicados ao seu esposo, ela, num diálogo bastante pitoresco, descreve seu próprio órgão sexual como um “campo úmido e bem regado”, pedindo para que Dumuzid venha lavrá-lo. Já disse, erótico, mas não profano, já que são dois deuses batendo um papinho...

Entretanto, meus queridos, como nem tudo que reluz é ouro, preciso contar um segredo: A descida de Inanna ao mundo dos mortos! “Óóóóóóóó...” todos gritam em coro! 

“A descida de Inana ao mundo dos mortos” é o principal texto por trás de um dos mitos mais célebres do Oriente Médio: a narrativa de Tâmuz e Ištar. Tâmuz é o nome que chega a nós pelo viés hebraico (תמוז). Até hoje ele é o nome do mês do calendário judaico equivalente a junho/julho – pleno verão, portanto – que os judeus derivaram a partir de um mês chamado Du’uzu do calendário babilônico, que homenageava o deus.

Estamos na época... Festa junina é para os fracos, quero ver mesmo é entrar na barca do Dante e dar um “rolê” no inferno! Pra gente ver que esse negócio de caçar o ser amado até lá na propriedade do Lúficer é um negócio meio antigo, mesmo...

O nome Ištar é também um nome acádio – para quem não sabe, a língua semítica falada na Babilônia, na época do exílio dos judeus, assim como o aramaico e o hebraico. Vênus é um sincretismo feito pelos latinos com base na Afrodite grega e Ištar se baseia na deusa Inanna, de Úruk, que também estava associada ao planeta que hoje chamamos Vênus (Dilbat para os Babilônios).

O consenso inicial era que a deusa Inanna estaria indo buscar o seu amado nos infernos, como faz o Orfeu grego. Porém, muito pelo contrário, ocorre é que Inana estava na verdade indo ao submundo por outros motivos, que ninguém sabe muito bem, e morre na volta... o problema é que não é permitido a ninguém (nem mesmo a uma deusa consideravelmente poderosa como Inanna) voltar dos infernos, ou pelo menos não sem mandar alguém no seu lugar – e esse alguém acaba sendo Dumuzid, por ele não ter chorado a morte dela. 

Aqui começa a novela mexicana, amor, ódio, vingança... Eu falei, moçadinha bonita... Os dramas são os mesmos, há, pelo menos, 4000 a. C., o que significa, em tempo corrido, uns 6000 anos... Vai vendo!

E como sempre, uma boa alma conciliadora resolve o problema – a irmã de Inanna – nada mais, nada menos, que A DEUSA DO VINHO, Ĝeštinana, acompanhada por uma Inanna bastante arrependida, faz um acordo com Ereškigal, de modo que os dois irmãos passariam a se revezar no inferno ao longo do ano, introduzindo o aspecto de ciclos sazonais (verão, inverno). Olha aí o tal do pacto com o Capiroto... (Só para refrescar a memória, Perséfone é dessas, que tem que descer uma vez por ano, para dar um rolêzinho no calor do fogo...)

E se a gente vai entrando na história dessa família, aí... Aparece Caim e Abel, aparece um filho que retorna da mansão dos mortos, entre outros...  De quebra ainda, “A descida de Inana” termina com um verso dedicado não a Inana, heroína do poema, ou a Dumuzid, sua vítima, ou mesmo Ĝeštinana, por ter se sacrificado pelo irmão, mas a Ereškigal, que é quase a vilã da história: “Divina Ereškigal / doce é louvar-te”. Pois é. (Adriano Scandolara, é dele essa última frase... vai lá no blog dele conferir o poema inteiro... é legal  - https://escamandro.wordpress.com)


Você não está chateado porque, tudo que você achava que era inédito na história desse planeta, é só uma cópia mais romântica do que o povo já falava há 6000 anos, não, né? Não fica, pois ainda vai vir a cereja do bolo! 

Volta na foto da Inanna... corujas, não é? Sabe quem tem a tradução de coruja nos textos saxônicos? Que depois se transformou em animais da noite? Que depois virou cobra e andam dizendo por aí que deu a maçã para Eva? Quem? Quem? Quem? Siiimmmm... Ela mesma... O demônio da noite, a primeira esposa de Adão (Cabala)... Lilith! 

Na verdade, são duas versões... Uma diz que Inanna é Lilith e a outra (que eu não acredito muito não...) que Ereškigal seria Lilith – aqui, aproximamo-nos dos idos de 1600 a. C.

Bom, em resumo, depois da criação das coisas e do aparecimento da “árvore primordial”, plantada por Inanna criança, com seis ramos e uma cobra de duas cabeças na sua raiz, é dominada por um ser das trevas, o que leva a garota a vagar pedindo ajuda para libertar seu trono.

Coincidentemente, em um momento de sua vida, encosta em uma macieira e percebe (palavras do próprio texto) que “She leaned back against the apple tree, her vulva was wondrous to behold. Rejoicing at her wondrous vulva, the young woman Inanna applauded herself.” 

Safada ou não, gente? Para quem não “pegou”... vai uma tradução mais suave...

Indicada como deusa, se define pela primeira vez como "jovem mulher", regojizando-se do corpo amadurecido que descobre. Fértil, será fertilizada e fertilizará os deuses e o reino a que pertencem. Antes das núpcias com Dumuzi, visitará o Deus da Sabedoria, no reino das águas profundas.  E a seguir toda a terra fértil será deles, desde a Suméria à Akádia. Dumuzi assume-se como pastor e como lavrador, domina rebanhos e terra fértil, é o par cósmico, masculino, de uma terra feminina domada. Ou seja, o bobão! Ups, desculpa... o Adão!

Nas estrofes seguintes, narrando o prazer que ambos oferecem um ao outro (alude-se a cinquenta vezes... mesmo... não estou brincando. Será que é dai que a colega tirou o título do 50 tons? Affff...) surge de novo a imagem conhecida das macieiras e do jardim em que florescem. Mas no puro prazer, ainda sem pecado nem dôr.

A dor virá depois, com a descida de Inanna ao Grande mundo Inferior.

Aqui, de portão em portão, até ao sétimo, será despojada de todas as insígnias de realeza que a distinguem, mas não a protegem num mundo que não lhe era destinado e ambicionou conhecer, e por isso será finalmente morta. Na sua ausência, Dumuzi, o consorte, embrenha-se por completo e com grande egoísmo na sua nova posição de rei, até que chega o momento em que, Dumuzi irá substituí-la, sofrendo ele o martírio que se pode dizer dos infernos. Eva, a substituta.. Chocante!

Deixarei as demais conclusões, julgamentos e outros para vocês... 







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