ONDE E QUANDO MORREMOS


Na última quinta (22), fui assistir à leitura desse texto - "Onde e quando morremos" - de Riad Gahmi. Um francês da École de la Comédie de Saint-Étienne. Não há descrição melhor que a da contracapa do livro: comédia política, sombria e de direita. Um texto cheio de símbolos, hipocrisia e comportamentos "inadequados". Saí em choque, e como de costume, fui pensar na vida... 

Com absoluta certeza, 99% do que eu vi caberia com maestria no que experimentamos hoje. Mas, como sou do tipo rebelde sem causa, ou com uma confusão de causas, que se misturam loucamente num balé cerebral pouco ortodoxo, passei a me perguntar: Por que precisamos ir até a França para prestar atenção nos gritos indignados pela falta de sensibilidade do nosso povo, formatado por esse modelo utilitarista de aparências? 

Nossa, que frase louca, alguns podem pensar... Isso tem sentido? Ou... Coitadinha, enlouqueceu de vez... Falei que esse negócio de Psicologia ia virar a cabeça da menina... Será que ela já está usando drogas? Vamos observar... 

Mas não, gente, nem louca, nem drogada - apesar das inúmeras vezes que pudesse parecer o contrário -, apenas, como disse uma amiga, "apesar dessa cara de psicopata com traços de insanidade, sou 100% amor pra dar". 

Bom, voltando aos sentimentos sobre o nosso comportamento... Primeiro, Mário Quintana, que já dizia o que dizia há um século: 

A Rua dos Cataventos
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Talvez, para você isso não faça sentido... Para mim, faz todo! Por que? Citando, ainda, nosso glorioso: “E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas”. Mesmo assim está um pouco complicado, né? Ok... Os fantasmas são os meus, os seus podem ser qualquer outra coisa – correntes que se arrastam, pedras no caminho, pedras amarradas no pé, exus bloqueadores – não sei... o que você quiser. 

Mesmo assim, pensei: será que não existe nada de hoje? Será que as pessoas não pensam mais nisso? Só bradam retumbantes em seus fantásticos mundos virtuais? Daí... encontrei uma coisa (outra amiga fofa me mostrou)... 

A princípio, deu medo – Cesar MC – já manifestado meu preconceito com os MCs... Sim, sou uma pessoa preconceituosa, confesso! Mas, não me intimido com eles, porque gosto de ser flexível também. Isso aprendi: bambu não quebra, enverga! 

Bom, a primeira vez que ouvi, o nó na garganta veio. Vamos à musiquinha:

Canção Infantil
Era uma casa não muito engraçada
Por falta de afeto não tinha nada
Até tinha teto, piscina, arquiteto
Só não deu pra comprar aquilo que faltava
Bem estruturada, às vezes lotada
Mas mesmo lotada uma solidão
Dizia o poeta, o que é feito de ego
Na rua dos tolos gera frustração
Havia outra casa, canto da quebrada
Sem rua asfaltada, fora do padrão
Eternit furada, pequena, apertada
Mas se “for colar” tem água pro feijão
Se o Mengão jogar, pode até parcelar
Vai ter carne, cerveja, refri e carvão
As moedas contadas, a luz sempre cortada
Mas fé não faltava, tinham gratidão
Mas era tão perto do céu
Como era doce o sonho ali
Mesmo não tendo a melhor condição
Todos podiam dormir ali
Mesmo só tendo um velho colchão
Mas era feita com muito amor

A vida é uma canção infantil
É, sério, pensa, viu?
Belas e feras, castelos e celas
Princesas, Pinóquios, mocinhos e
É, eu não sei se isso é bom ou mal
Alguém me explica o que nesse mundo é real
O tiroteio na escola, a camisa no varal
O vilão que tá na história ou aquele do jornal
Diz por que descobertas são letais?
Os monstros se tornaram literais
Eu brincava de polícia e ladrão um tempo atrás
Hoje ninguém mais brinca, ficou realista demais
As balas ficaram reais perfurando a Eternit
Brincar “nós ainda quer”, mas o sangue melou o pique
O final do conto é triste quando o mal não vai embora
O bicho-papão existe, não ouse brincar lá fora
Pois cinco meninos foram passear
Sem droga, flagrante, desgraça nenhuma
A polícia engatilhou: Pá, pá, pá, pá
Mas nenhum, nenhum deles voltaram de lá
Foram mais de cem disparos nesse conto sem moral
Já não sei se era mito essa história de lobo mau
Diretamente do fundo do caos procuro meu cais no mundo de cães

Os manos são maus,
no fundo a maldade resulta da escolha que temos nas mãos
Uma canção infantil, à vera
Mas lamento, velho, aqui a bela não fica com a fera
Também pudera, é cada um no seu espaço
Sapatos de cristal pisam em pés descalços
A Rapunzel é linda sim, com os dreads no terraço
Mas se a lebre vim de Juliet, até a tartaruga aperta o passo
Porque é sim tão difícil de explicar
Na ciranda, cirandinha, a sirene vem me enquadrar
Me mandando dar meia-volta sem ao menos me explicar
De costa barros a Guadalupe, um milhão de enredos
Como explicar para uma criança que a segurança dá medo?
Me explicar que oitenta tiros foi engano
Oitenta tiros, oitenta tiros, ah
Carrossel de horrores, tudo te faz refém
Motivos pra chorar até a bailarina tem
O início já é o fim da trilha
Até a Alice percebeu que não era uma maravilha

Tem algo errado com o mundo, não tire os olhos da ampulheta
O ser humano em resumo é o câncer do planeta
A sociedade é doentia e julga a cor, a careta
Deus escreve planos de paz, mas também nos dá a caneta
E nós, nós escrevemos a vida, Iphones, a fome, a seca
Os “homi”, os drones, a inveja e a mágoa
O dinheiro, a disputa, o sangue, o gatilho
Sucrilhos, mansões, condomínios e guetos
Tá tudo do avesso, “faiamos” no berço
Nosso final feliz tem a ver com o começo
Somente o começo, somente o começo
Pro plantio ser livre a colheita é o preço
A vida é uma canção infantil, veja você mesmo
Somos Pinóquios plantando mentiras e botando a culpa no Gepeto
Precisamos voltar pra casa
Onde era feita com muito amor
Onde era feita com muito amor

Acredito, eu, agora, que não preciso dizer mais nada... Boa noite, queridos leitores...

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