HOJE É UM DIA ESPECIAL

O tempo é uma metáfora, recheada de processos metafísicos de encontros e desencontros consigo. Não com os outros, consigo. 

Hoje é um dia especial!

Acho que é o dia que eu assino a minha sentença de degeneração de espírito moral, desconstruindo todos os dogmas de perfeição: tijolos das paredes da caixa-molde em que eu fui colocada serão quebrados, um a um, até que a luz possa passar. Acho que é o dia que rompo com o cordão umbilical.

Acho que é o dia que desisto da esperança de receber, de graça, o que eu preciso. Mesmo que minha precisão seja repleta de coisas, as quais não têm preço que se pague. O que eu quero não dá para comprar. 

Hoje é o dia de me desligar dos vínculos, de superar a existência de outros que não sou eu, de me concentrar em mim mesma. Hoje é o dia de abandonar os maus hábitos simbióticos dos velhos vínculos familiares doentes. De montar uma estratégia eficiente para recuperar a minha autonomia.

Chegou a hora de dar um basta em mediocridades amarradas nos meus pés, como pedras suicidas em um lago vazio, arrastadas amargamente por ganchos presos às minhas costas, que me impedem de dar o primeiro salto e voar. Chegou a hora de dar um basta no julgamento severo dos olhos alheios, que não são capazes de enxergar a sensibilidade translúcida dos pequenos gestos. Chegou a hora de tirar do papel aquela menina, que aprendeu a ser feliz sozinha. 

Toda rachadura é dolorida, mas toda cicatriz conta uma história. Essa cicatriz é da alma. E a minha, já estava acostumada com ela. Acontece que, de repente, o sinal de chuva começou a deixá-la dolorida, como essas juntas envelhecidas anunciando a mudança do tempo. E o tempo mudou. E o tempo é uma metáfora de encontro consigo. E eu encontro comigo, sempre. Mas dessa vez, vou sair, vou me levar caminhar de mãos dadas, para me ajudar a mostrar a minha natureza, sem que eu fique com medo.


Será que sou eu? (Paulinho Moska)

Será que sou eu na minha carteira de identidade?
Será que sou eu que ando no meu corpo pela cidade?
Será que sou eu que morro de rir da felicidade?
Ou será que sou eu que minto pra dizer a verdade?
Será que sou eu o feto que não quer nascer?
Será que sou eu o único defunto que quer viver?
Será que sou eu a cara em que meu olho mora?
Ou será que sou eu aquele cara sem culpa que foi embora?
Será que sou eu puxando o fio do suéter de lã?
Será que sou eu excitando a força do imã?
Será que sou eu que tenho medo do jornal de amanhã?
Será que sou eu quer sou feliz por não usar sutiã?
Será que sou eu o alvo da boca que me beija?
Será que sou eu que bebo água ao invés de cerveja?
Será que sou eu o cabeludo pregado na cruz da igreja?
Ou será que sou eu que penso ser o que talvez eu nem seja?


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