QUARTA FEIRA DE CINZAS...

Mas é Carnaval 
Não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal

Deixa a festa acabar 
Deixa o barco correr

Deixa o dia raiar
Que hoje eu sou 
Da maneira que você quiser...
(Chico Buarque)


Um pouco tarde para assoprar as cinzas, mas por um motivo nobre. Esse Carnaval foi diferente! Não teve bloco na rua, para mim... O Brasil em festa, mas minha quarta foi de tempestades e velas. Não há como descrever o paradoxo. A rainha da bateria desfilando, um conjunto máximo de energia, e "na frente do espelho, mas desaparecida, ela aparece na fotografia, do outro lado da vida..." (Caetano e Gil). Não foi Lindoneia. Dessa vez, foi Maria Terezinha.

Não havia percebido, em mim, o impacto desse último ato. Da vida que levou e levada da vida, deixou um primo querido e mais muita gente triste. Triste por perder alguém, que nas suas peripécias, só pensava em se doar e ver a felicidade nos olhos dos outros, porque os seus mesmos, eram tristes. Lindoneia desaparecida, na Tv e nas cruzadinhas. Lindoneia desaparecida, no cigarrinho e no café. Terezinha, que dispensava a santidade do "Maria", mas que até poderia ter sido santa - não porque nunca errou, mas porque tinha amor, muito amor. Do jeito dela, mas tinha.

Normalmente não me pega a morte dessa forma, normalmente não pegava. Mas há algum tempo abandonei a armadura. Não sei se foi bom ou ruim. Sei que esse episódio extraiu coisas de mim, que eu não queria ver. Precisava, mas não queria. Explodi em raiva, tirei o resto que tinha, limpei a alma em choro de dez dias, quase sem respirar. Atingi quem não merecia e, de uma forma avessa, recuperei a força que jazia morna e dormente.

"Como a gente dá o colo para o nosso super-herói?" Essa era a única pergunta que eu tinha. Não sei. Não sei até agora. Quando pai e mãe sofrem, não sei o que os outros filhos fazem e eu só fiz o que eu sabia fazer... Agradei com a mão. Mas não tinha mãos grandes o suficiente para dar o suficiente. Então, dei o que eu tinha. E lá em casa, sozinha, o aperto era grande pensando na minha própria vida. Um agrado de mãe virou uma briga, e confesso que foi bom. A última explosão e a mudança completa de clima.

Nada acontece por acaso. Hoje, mais tranquila, com o foco recuperado, a preocupação era com uma amiga. Uma amiga querida sumida. A Lindoneia não me saiu da cabeça, nenhum dia desde aquele dia. Chamei uma conversa, mas ela a deixou vazia. Outra amiga preocupada, escreveu uma coisinha assim como a minha. Também teve a resposta evasiva. 

De poetas estamos cercados e quando ela, de pronto, explicou-me o ocorrido, não sabia mais se falava da vida da sumida, ou da minha. Então deixo aqui sua fala, Camila Artoni, que ainda não acredita, mas é poeta, sim! E será uma Psicóloga linda:

Ela me respondeu da mesma forma: 
"tô bem, fiquei afastada por alguns dias, mas já eu volto"...
A gente fala desse jeito quando alguém morreu 
Ou algo morreu dentro da gente... 
Ou a bolha estourou! 
Quando a placenta não protege mais: sufoca!   

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