SOLIDÃO E PEQUENAS ILUSÕES


A natureza pediu introspecção. Alguns reclamando, alguns adorando. Eu, sigo pensando. Um tempo para organizar. Organizar os pensamentos, organizar os sentimentos, organizar a vida. Mas... como sempre, os pensamentos soltos só estão me conduzindo a um lugar... E de músicas esquecidas da Ana Carolina, o aniversário de uma nova amiguinha querida e a ilusão do amor, a inspiração chega, devagarinho, tímida, sem muito espaço para expandir. Talvez ele leia, talvez não. Talvez ele leia e não conte, como o de costume. Mas, os olhos falam mais do que qualquer movimento do corpo. Pena que não ando vendo muito seus olhos... 

Sempre chega a hora da solidão. 
Sempre chega a hora de arrumar o armário. 
Sempre chega a hora do poeta a plêiade.
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede. 
O tempo passa e engraxa a gastura do sapato 
E a gente não nota que a lua muda de formato. 
(...)                                          Ana Carolina - O Avesso dos Ponteiros


E quanto mais pensava sobre mim, mas pensava sobre ele. 
Era uma mistura de tempo e gente. Stranger in the night exchanging glances...

Sempre na noite. Um isolamento meu transformou-se em algo institucionalizado, mas, antes disso, ele veio. Veio porque era a única possibilidade do encontro. Veio até meu mundo e, dessa vez, quase que sem querer, encontrou a minha alma desnuda, porque, eu mesma, não acreditava que ele viria. Não deu tempo de colocar a armadura. E se foi. E voltou de surpresa, outra vez. Saudade e euforia. Todos os meus sentimentos bons de volta. Toda a sensibilidade de sensações. Sinestésico. Sinestésico.

E foi de novo, como antes. Fazia tempo. Mas esse tempo, para mim, era uma ilusão. O vácuo, entre o último toque e o primeiro, desapareceu, como o que se escreve nessas teorias malucas sobre relatividade. E eu, na minha submissão voluntária de pura falácia rebelde, desafio Cronos, o implacável, e resgato os meus humores românticos adolescentes. O tempo é cruel, mas a cada olhar, sinto que estamos mais próximos. 

No outro dia ele se vai. Passa pela porta com a mesma mensagem de "nunca mais". Eu não quero que ele vá. A mim, parece-me que ele também não quer ir, mas ao mesmo tempo, não consegue ficar. E é sempre o tempo que constrói essa parede. Duas solidões compartilhadas, dois estranhos na noite trocando olhares e perguntando quais são as chances de compartilharem o amor(?). Não posso dizer pelo outro, só por mim. Coragem e covardia sempre foram as razões de ir ou de ficar. Estar sozinho é para quem tem coragem. Vou ler meu livro Cem Anos de Solidão.

Solitários. Somos. Digo solitários, porque nunca estamos sozinhos, mas sempre estamos só. Isso é o paradoxo da modernidade. Solitários que se compreendem pelo olhar. Ao contrário de Cronos, que distancia e consome, o Universo aproxima energias semelhantes. Isso faz as marcas da nossa existência ficarem coloridas. Por mais que o tempo desista, a lembrança sempre insiste. E por esses dias, as minhas estão tão insistentes... Até um pouco renitentes. Ponho no cantinho, e elas voltam. Com suavidade, sempre, para não assustar. Minhas lembranças me conhecem bem.

Procurar uma nova ilusão? Não sei... Outro amor, não quero ter além daquele que sonhei. Então concluo que, apesar do meu querer ser ininteligível aos olhos amigos, que me querem bem e não podem compreender como ainda estou aqui, decidi viver essa ilusão. Porque um dia, o amor, que eu sonhei para mim, era quase que como ele, com a diferença que ficava. Nele, trocaria duas coisas - somente duas coisinhas. Trocaria o "eu sou covarde" por "te quero muito" e aquele olhar de "nunca mais", na soleira da porta, por "até amanhã."   

Tenho coragem e tenho medo, sim. Que se danem os nós, porque eu mesma quem os dei.. Numa poesia esquecida, deixo meu espírito de hoje...

Vim gastando meus sapatos, me livrando de alguns pesos
Perdoando meus enganos, desfazendo as minhas malas
Talvez assim, chegar mais perto.
Achei que eu me acompanhava, e ficava confiante
Outras horas era o nada, a vida presa num barbante
E eu quem dava o nó
Eu lembrava de nós dois, e já cansada de esperar
E tão só eu me sentia, e seguia a procurar (...)
Vem, eu sei que está tão perto
E por que não me responde?
Se também suas esperas te levaram pra bem longe...
É longe esse lugar.
Vem, nunca é tarde ou distante pra eu te contar os meus segredos
A vida solta num instante
Tenho coragem, tenho medo, sim
Mas que se danem dos nós (...)
                                                              Ana Carolina - Que se Danem os Nós.


** Ich vermisse dish, deutscher... 

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