ENTRE OUTROS POEMAS...
Janelas
Nessa horas, experimento a solidão. Nenhuma alma presente! Apenas carros, que passam ao longe, com ruídos insanos de quem precisa provar pro mundo o que possui. Estilhaços de gente acendem pequenas janelas nos prédios. Somos pequenos lances luminosos solitários que se unem pelo simples fato de estarmos sós. Sem voz ou lágrimas, apenas só. Uma taça de vinho, e só.
Fulguras internas frívolas se dissipam em pensamentos baixos - aquele que o padre condenou na confissão, mas não saem da cabeça -, apenas só... Dedos vorazes compensam, ou não, porque o vazio se espalha na noite barulhenta da cidade. Estou só e fico só.
De tanto só, não sei como não ser. Sem perceber, o dia reluz, e só posso ver derreter a máscara que me pus ontem. Não era eu, essa também não sou. Sobra-me o nada de ser tudo isso incompreendido, por mim e pelos outros. Se nem de mim tenho a certeza de ser-me, não tardará de um mundo vil esperar a resposta. Ela virá. Distorcida como as faces dos sós que vira na janela há pouco. Nas janelas... Distorcida por um mundo de máscaras em que perece uma alma desvalida no Hades. Estou só. Estamos. Seguimos. Simplesmente de volta ao pó.
Fumo, igual a uma vagabunda, porque meus dias se fazem de noite e a noite me chama, como nos filmes do Tarantino: Lanças, gritos e sangues mudos, embebidos de uma trilha sonora suave, digna de bailarinas na Lua. Solidão é um estado, diriam os poetas. No meu caso é essência. De Tarantino a Almodóvar pereço na treva de ser eu mesma. Peço a Carroll que me devolva o poder da Alice, perdi quando saí do buraco e a adultez me tomou nos braços.
Perdi e me perdi. Não me salvo, porque não me acho. Procuro-me perdida e perco-me no breu da mesma noite em que me acho, mas não sou eu. Sou apenas um espectro de mim, pairando sobre mim, esquecendo-me de mim, para renascer no novo eu que serei, quando o sol deixar.
(13/01/2021)
O Bobo
Entre arlequins e querubins
Jaz o bobo da corte
Seu último ato insolente
Rodopios entre gentes
Misterioso tropeço
Giro preso no pescoço
Estrilado alvoroço
Imóvel
Torto
Frio
Roxo
Jaz o bobo da corte
Seu último ato insolente
Rodopios entre gentes
Misterioso tropeço
Giro preso no pescoço
Estrilado alvoroço
Imóvel
Torto
Frio
Roxo
(05/11/ 2020)
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